Nariz de palhaço

Sua forma, nada atlética, dava-lhe certo orgulho. Nunca entendeu a preferência por corpos magros ou torneados. As linhas mais suaves, curvilíneas, são necessárias para uma forma bonita e com harmonia. A grande barriga, muitas vezes limitada pelo tamanho das roupas, tinha mais suavidade e proporção e ainda inspirava respeito. Pelo menos físico.

As linhas suaves sempre foram regra, desde as roupas com bolinhas perfeitamente redondas, até a maquiagem milimetricamente desenhada. Levava horas, por ser seu momento de meditação, de introspecção. O resultado, nunca o mesmo, às vezes o surpreendia, quase sempre positivamente.

Os adornos eram poucos. Era outro ponto de dúvida: não entendia o uso de brincos, colares, perucas e outros artifícios utilizados indiscriminadamente, sem um propósito claro. No seu caso limitava-se à gravata, borboleta, apesar de sentir-se antiquado e tolo.

Ah, e o sapato. Algo único, especial, digno de orgulho. Nunca encontrou um que gostasse, portanto sentiu-se forçado a aprender o ofício e criar um que atendesse sua expectativa. Parecia simples, se é que um sapato de palhaço pode ser chamado de simples, mas também não possuía qualquer penduricalho. De couro, sem tintura, tinha mais de 40cm de comprimento.

Sempre deixava por último sua flor artificial, único mimo que se permitia, encaixada no suspensório.

Uma vez pronto saiu, mas sem um destino certo, afinal há anos havia desistido de circos e outros shows. Sempre manteve acesa a expectativa de encontrar uma atmosfera onírica, mas se desencantava com as pessoas, sempre competitivas e mesquinhas.

Seu jeito também não trazia boas amizades. O achavam estranho, como se a fantasia não fosse a de palhaço, mas a de humano que usava nos dias de folga. E essa não lhe caía bem, mesmo que o motivo não fosse sua culpa, mas da própria natureza.

O tempo o forçou a tomar medidas mais drásticas, pois não poderia ficar sem emprego e sem dinheiro. De início foi a todos os circos que conhecia, sem sucesso. Shows menores, para empresas ou eventos, não tinham brilho suficiente. Chegou a ser palhaço de rodeio, mas sua forma o impedia.

Deixar de ser palhaço jamais foi uma opção, pois não aguentaria se olhar no espelho e ver as formas murchas. Também não suportaria não mais ouvir as risadas. E não há nada mais triste neste mundo do que um palhaço sem alegria, sem joie de vivre.

Em suas inúmeras andanças, quase peregrinações em busca de um destino que não era o seu, conheceu lugares e pessoas diferentes, justas ou não. Onde fosse, tinha ao menos a certeza de que haveria crianças, que sempre o encantavam, pela pureza e por não terem tido tempo ainda de levantarem as barreiras intransponíveis que a vida adulta nos força.

Sua facilidade com crianças encantava a todos. No seu âmago sabia ainda ser uma criança também, sem malícia, sem medo, sem se preocupar com o futuro e com um passado sem relevância. Não se prendia a nada nem ninguém, tentava manter uma visão nova sobre tudo à sua volta, uma curiosidade crônica. Sabia que o mundo era uma matéria-prima infinita, mas não sabia tirar proveito do que via sem interagir.

Um dia, enquanto caminhava por ruas cinzas, apinhadas de pessoas, mas sem qualquer atrativo, escutou um som familiar. O coração ficou mais leve e ao mesmo tempo mais forte, batendo e batendo como quem quer chamar atenção. Um frio na barriga anunciou a necessidade de correr, de ir em busca da origem daquele som.

Risadas… não, mais do que isso, gargalhadas. Não sabia de onde vinham, mas precisava encontrar o dono, dona, pareciam muitos. Pelo tom, pela sinceridade, pela falta de ritmo até, sabia que eram crianças. Adultos não conseguem gargalhar deste jeito, salvo quando intoxicados por substâncias desagradáveis, o que torna a experiência sem sentido.

Começou a correr, sem direção. As pessoas paravam na rua para rir do palhaço gordo que quase caía ao dar saltos e mais saltos, tentando driblar os próprios pés. Não se preocupou com o espetáculo que fazia, nem mesmo ao trazer um pouco de alegria por onde passava. Neste momento era ele quem precisava rir.

Já sem saber para qual lado seguir, olhou para cima. Estava em frente a um hospital, com uma entrada enorme, luxuosa. Não hesitou e correu para a recepção, mas não sabia o que perguntar, portanto mudou o rumo e correu para as escadas. Não sabia se podia entrar, mas não achava que impediriam um palhaço de entrar em um hospital à procura de risadas. Surgia, naquele momento, mais um paciente buscando tratamento.

Entrou, subiu lances de escada, percorreu corredores, mas não demorou a encontrar. Enquanto corria, pacientes e enfermeiras abriam caminho, com uma expressão que era misto de susto com riso. Quando começava a se perguntar se encontraria antes de desmaiar de exaustão chegou ao destino.

As enormes portas estavam fechadas, mas no pequeno letreiro ao lado estava escrito: ala infantil da oncologia. Não sabia o que a palavra significava, mas sabia que algo mágico acontecia ali. Abriu as portas e, estranhamente, mal notaram sua presença. O olhavam, não com estranheza, mas com grande expectativa. Os sorrisos pareciam à espreita, à espera de qualquer chance ou oportunidade para se revelarem.

Ainda em dúvida, ou incrédulo, fez a única coisa que sabia fazer com perfeição. Inflou as bochechas o máximo que conseguia, estufou o peito e a barriga e, de supetão, soltou todo o ar pelo nariz. Seu nariz de palhaço voou longe até cair próximo à maca de uma menina, que parecia que nunca mais pararia de rir.

Todos que ali estavam pareciam encantados, contagiados pela risada sem controle. A atmosfera era leve, perfeita. Não havia hora, não havia dia, não havia ingresso, o público era ao mesmo tempo espectador e artista. Aquele dia nunca passou, nunca teve um fim.

A lembrança do palhaço redondo foi mágica, quase perfeita demais para ser realidade. Nunca se soube quem era, ou quem havia sido, mas de lá nunca mais saiu. Todas as crianças o conheciam, mas os adultos logo esqueceram. Lendas foram criadas em seu nome, desconhecido, mas a verdadeira história era contada de maneiras diferentes, mudando conforme o narrador.

Dizem que viveu para sempre, ou que simplesmente nunca morreu. Apenas as crianças sabiam.

Ilustração: Stefan Zsaitsis