Eco

A atmosfera da cidade nunca refletiu sua realidade. Os mais de dez mil habitantes, muitos parentes em primeiro, segundo ou terceiro grau, raramente se encontravam para ocasiões sociais. Os restaurantes recebiam alguns casais, mas a maioria dos clientes era composta por pessoas solitárias, que buscavam o silêncio e privacidade, oferecidos também pelos atendentes.

Um visitante desprevenido, perdido na atmosfera apática que permeava a cidade, poderia cometer o erro de perguntar o que teria acontecido nesta cidade, na expectativa que algum trauma de grandes proporções explicasse o clima, na maior parte do tempo sombrio.

No entanto, seria improvável encontrar alguém que se dispusesse a contar ou explicar as causas. Talvez pela simples dificuldade de encontrar alguém antigo o suficiente que lembrasse dos detalhes.

A história que os jovens sussurravam à noite, sempre com o intuito de testar os menos corajosos, já teria sofrido inúmeras variações, incorporado trechos e personagens de filmes mais recentes e, sem dúvida, perdido boa parte de sua intensidade.

Tal visitante, caso fosse curioso e estivesse tomado por um impulso perigoso para desvendar o mistério, deveria buscar entre os anciões da comunidade, há muito reclusos e irascíveis. Ainda seria uma busca cansativa por ruas de chão batido, mal sinalizadas, entrecortadas por caminhos criados pelos animais locais, as vezes com maior fluxo e utilidade.

Há quem diga que seria mais prudente perguntar aos mesmos sobre o ocorrido. Talvez, ainda que sem garantias, os animais irracionais teriam mais chances de desvendar a história do que meros seres racionais, com suas leis e regras, todas sem qualquer aplicabilidade neste tema.

Certa vez, um garoto franzino jurou por toda sua família, da qual não sentia qualquer apreço, que viu um senhor conversar por horas com uma vaca leiteira. A discussão unilateral, claro, pois se trata de uma história verídica, teria escalado para berros e ameaças por parte do senhor, que em um determinado momento apenas gritava – Para!

Houve a tentativa de interrogar tal ruminante, mas de tão absurda a ideia foi descartada pelo delegado da cidade, que até hoje garante que não foi pela impossibilidade de encontrarem o animal.

Seu proprietário, por outro lado, ainda pode ser visto nos cultos da igreja, mas apenas seus olhos ainda mostram alguma vivacidade, diagnosticados pelo padre como delírios de uma mente vazia e desprovida de fé.

Se tal visitante, de posse de todas essas informações, ainda sustentasse algum interesse pelo assunto, este deveria observar as aves, os insetos, répteis e outros seres conhecidamente primitivos.

Mediante extenuante análise, pessoas dotadas de boa capacidade analítica, mas com uma perspectiva mais abrangente das forças que regem este mundo, veriam com facilidade um padrão recorrente.

Eu, na época ainda dotado de todas minhas capacidades psíquicas, demorei não mais que um ano para perceber. Estavam todos loucos, inclusive eu.

Nariz de palhaço

Sua forma, nada atlética, dava-lhe certo orgulho. Nunca entendeu a preferência por corpos magros ou torneados. As linhas mais suaves, curvilíneas, são necessárias para uma forma bonita e com harmonia. A grande barriga, muitas vezes limitada pelo tamanho das roupas, tinha mais suavidade e proporção e ainda inspirava respeito. Pelo menos físico.

As linhas suaves sempre foram regra, desde as roupas com bolinhas perfeitamente redondas, até a maquiagem milimetricamente desenhada. Levava horas, por ser seu momento de meditação, de introspecção. O resultado, nunca o mesmo, às vezes o surpreendia, quase sempre positivamente.

Os adornos eram poucos. Era outro ponto de dúvida: não entendia o uso de brincos, colares, perucas e outros artifícios utilizados indiscriminadamente, sem um propósito claro. No seu caso limitava-se à gravata, borboleta, apesar de sentir-se antiquado e tolo.

Ah, e o sapato. Algo único, especial, digno de orgulho. Nunca encontrou um que gostasse, portanto sentiu-se forçado a aprender o ofício e criar um que atendesse sua expectativa. Parecia simples, se é que um sapato de palhaço pode ser chamado de simples, mas também não possuía qualquer penduricalho. De couro, sem tintura, tinha mais de 40cm de comprimento.

Sempre deixava por último sua flor artificial, único mimo que se permitia, encaixada no suspensório.

Uma vez pronto saiu, mas sem um destino certo, afinal há anos havia desistido de circos e outros shows. Sempre manteve acesa a expectativa de encontrar uma atmosfera onírica, mas se desencantava com as pessoas, sempre competitivas e mesquinhas.

Seu jeito também não trazia boas amizades. O achavam estranho, como se a fantasia não fosse a de palhaço, mas a de humano que usava nos dias de folga. E essa não lhe caía bem, mesmo que o motivo não fosse sua culpa, mas da própria natureza.

O tempo o forçou a tomar medidas mais drásticas, pois não poderia ficar sem emprego e sem dinheiro. De início foi a todos os circos que conhecia, sem sucesso. Shows menores, para empresas ou eventos, não tinham brilho suficiente. Chegou a ser palhaço de rodeio, mas sua forma o impedia.

Deixar de ser palhaço jamais foi uma opção, pois não aguentaria se olhar no espelho e ver as formas murchas. Também não suportaria não mais ouvir as risadas. E não há nada mais triste neste mundo do que um palhaço sem alegria, sem joie de vivre.

Em suas inúmeras andanças, quase peregrinações em busca de um destino que não era o seu, conheceu lugares e pessoas diferentes, justas ou não. Onde fosse, tinha ao menos a certeza de que haveria crianças, que sempre o encantavam, pela pureza e por não terem tido tempo ainda de levantarem as barreiras intransponíveis que a vida adulta nos força.

Sua facilidade com crianças encantava a todos. No seu âmago sabia ainda ser uma criança também, sem malícia, sem medo, sem se preocupar com o futuro e com um passado sem relevância. Não se prendia a nada nem ninguém, tentava manter uma visão nova sobre tudo à sua volta, uma curiosidade crônica. Sabia que o mundo era uma matéria-prima infinita, mas não sabia tirar proveito do que via sem interagir.

Um dia, enquanto caminhava por ruas cinzas, apinhadas de pessoas, mas sem qualquer atrativo, escutou um som familiar. O coração ficou mais leve e ao mesmo tempo mais forte, batendo e batendo como quem quer chamar atenção. Um frio na barriga anunciou a necessidade de correr, de ir em busca da origem daquele som.

Risadas… não, mais do que isso, gargalhadas. Não sabia de onde vinham, mas precisava encontrar o dono, dona, pareciam muitos. Pelo tom, pela sinceridade, pela falta de ritmo até, sabia que eram crianças. Adultos não conseguem gargalhar deste jeito, salvo quando intoxicados por substâncias desagradáveis, o que torna a experiência sem sentido.

Começou a correr, sem direção. As pessoas paravam na rua para rir do palhaço gordo que quase caía ao dar saltos e mais saltos, tentando driblar os próprios pés. Não se preocupou com o espetáculo que fazia, nem mesmo ao trazer um pouco de alegria por onde passava. Neste momento era ele quem precisava rir.

Já sem saber para qual lado seguir, olhou para cima. Estava em frente a um hospital, com uma entrada enorme, luxuosa. Não hesitou e correu para a recepção, mas não sabia o que perguntar, portanto mudou o rumo e correu para as escadas. Não sabia se podia entrar, mas não achava que impediriam um palhaço de entrar em um hospital à procura de risadas. Surgia, naquele momento, mais um paciente buscando tratamento.

Entrou, subiu lances de escada, percorreu corredores, mas não demorou a encontrar. Enquanto corria, pacientes e enfermeiras abriam caminho, com uma expressão que era misto de susto com riso. Quando começava a se perguntar se encontraria antes de desmaiar de exaustão chegou ao destino.

As enormes portas estavam fechadas, mas no pequeno letreiro ao lado estava escrito: ala infantil da oncologia. Não sabia o que a palavra significava, mas sabia que algo mágico acontecia ali. Abriu as portas e, estranhamente, mal notaram sua presença. O olhavam, não com estranheza, mas com grande expectativa. Os sorrisos pareciam à espreita, à espera de qualquer chance ou oportunidade para se revelarem.

Ainda em dúvida, ou incrédulo, fez a única coisa que sabia fazer com perfeição. Inflou as bochechas o máximo que conseguia, estufou o peito e a barriga e, de supetão, soltou todo o ar pelo nariz. Seu nariz de palhaço voou longe até cair próximo à maca de uma menina, que parecia que nunca mais pararia de rir.

Todos que ali estavam pareciam encantados, contagiados pela risada sem controle. A atmosfera era leve, perfeita. Não havia hora, não havia dia, não havia ingresso, o público era ao mesmo tempo espectador e artista. Aquele dia nunca passou, nunca teve um fim.

A lembrança do palhaço redondo foi mágica, quase perfeita demais para ser realidade. Nunca se soube quem era, ou quem havia sido, mas de lá nunca mais saiu. Todas as crianças o conheciam, mas os adultos logo esqueceram. Lendas foram criadas em seu nome, desconhecido, mas a verdadeira história era contada de maneiras diferentes, mudando conforme o narrador.

Dizem que viveu para sempre, ou que simplesmente nunca morreu. Apenas as crianças sabiam.

Ilustração: Stefan Zsaitsis

Mortal

Véspera de feriado, rodovia cheia, chuva, trânsito lento. Todos os veículos, inclusive o nosso, moviam-se vagarosamente, como se o prazer da viagem não estivesse no destino, mas no percurso.

A viagem já durava tempo suficiente para as músicas, brincadeiras e jogos terem se esgotado e todos estavam em silêncio. Olhei de relance para o banco traseiro e vi que nossa filha dormia, enquanto o bebê parecia encantado com as gotas de chuva na janela.

Chovia pouco neste momento, mas pela lentidão do trânsito alguém provavelmente se acidentara. Se não fosse essa a causa da lentidão, pior, era apenas o excesso de veículos. Ri pela maldade despercebida e acho que até corei.

Conforme o carro avançava, começamos a ver as luzes amarelas indicando o local do acidente. Notei que Julio, meu marido, ao invés de ir para as faixas do canto à direita, longe do acidente, parecia querer chegar mais e mais perto. Afastei esse pensamento apesar do desconforto.

Realmente a batida foi grande, mas eu só conseguia avistar um carro na grama entre as pistas. Automaticamente já procurava pelo outro carro envolvido, quando notei um corpo estendido, logo ao lado da estrada, apenas parcialmente coberto. Demorei mais do que gostaria para virar o rosto e fiquei com a imagem na cabeça por dias.

Nosso carro passou a poucos metros do corpo e Julio parecia encantado com a cena, olhos vidrados, aparentemente sem qualquer sinal de pena, ou mesmo repulsa. Cheguei a reclamar porque o bebê também olhava pela janela, ainda que fosse impossível ver algo, mas ele não parecia me ouvir.

Seguimos viagem como se nada tivesse ocorrido e chegamos à praia de madrugada. Todos estavam exaustos e fomos dormir. Ao deitar, perguntei ao Julio o que teria chamado a atenção dele, qual o motivo de tanta curiosidade, mas ouvi apenas um grunhido antes dele apagar as luzes.

O final de semana passou voando, como era normal em momentos felizes. Vez ou outra me pegava pensando no rapaz caído na estrada, no sangue, nas formas irreconhecíveis, mas me forçava a pensar em algo mais alegre. Demorou alguns dias, mas surtiu efeito.

Alguns meses depois, enquanto caminhava em direção ao escritório após o almoço, avistei um sebo e não resisti à tentação de entrar. O cheiro de poeira, abafado, era até atrativo, mas tive que me esforçar para percorrer o interior da loja sem tossir ou ter uma crise de espirro.

Andava por entre as estantes, com os braços esticados e as mãos alisando as diversas capas de livros, revistas e enciclopédias. Logo um volume chamou minha atenção. A capa não estava certa, tinha uma textura estranha, grosseira, era inteiramente preta e com título em vermelho sangue.

Não lembro o título, mas a história girava em torno de uma tragédia familiar, onde o epicentro era o filho mais velho, postumamente diagnosticado como psicopata. Comprei e comecei a ler imediatamente, num impulso injustificado. Continuei minha caminhada até o escritório com o livro nas mãos, lendo aos poucos enquanto desviava de outros pedestres.

No trabalho, cheguei ao absurdo de ir ao banheiro do escritório para continuar a ler a história, que ao mesmo tempo me prendia e enojava.

O garoto do livro era inteligente, introspectivo, recluso, mas nunca deu sinais de sua intenção ou de sua frieza. Alguns fatos isolados, como animais mortos encontrados em terrenos próximos à casa dos pais, poderiam ter levantado algum tipo de suspeita, mas ninguém fez essa conexão.

Acho que li o livro inteiro em dois ou três dias, mas só atentei à razão de minha curiosidade no final. Ao fechar o livro a imagem do rapaz morto na beira da estrada, naquele feriado prolongado, voltou lívida à mente, com mais detalhes do que lembrava.

Não entendia o porquê dessa conexão. Permaneci sentada no sofá da sala com o livro nas mãos por um tempo razoável, ponderando a história. Estava tão alheia ao mundo que não vi o Julio entrar em casa. Levei um susto!

Na hora em que o vi, o que apenas o subconsciente havia entendido, agora o consciente processava. Inúmeros pensamentos surgiram quase que simultaneamente… minha sogra comentando como o Julio era quieto quando criança, que passava os dias lendo, saía para expedições mas nunca dizia onde ou com quem estava.

Uma vez me confidenciou que, numa tentativa falha de conquistar a atenção do filho, comprou um cachorrinho, um vira-lata. O sorriso do filho desapareceu em poucos dias, sem qualquer razão aparente, e o cachorrinho passou a evitá-lo.

Não lembrava do desfecho da história ou do destino do animalzinho, mas senti um calafrio por todo o corpo. A completa proibição de termos cachorro ou qualquer outro animal de estimação em casa, apesar das inúmeras crises de nossa filha, passou a fazer menos sentido ainda.

Novamente o acidente me veio à mente e lembrei do interesse de Julio em olhar o corpo do pobre rapaz caído na estrada. Qual ser doentio ficaria feliz com a desgraça alheia?

Em meio às lembranças senti medo, pavor, um princípio de pânico. Por um segundo senti que minhas forças sumiram e acho que desmaiei. Ao acordar, Julio estava me abanando e jogando água no meu rosto. Só parou quando meu olhar fixo o deixou desconfortável.

Após me recuperar, tomei a decisão de enfrentá-lo. O desmaio interrompeu minha linha de raciocínio e deu mais clareza às ideias. Sabia que coincidências existiam e, apesar de alguns detalhes estranhos, eu poderia acabar com um relacionamento de anos sem motivo.

Mesmo em nossas piores brigas nunca trocamos agressões, físicas ou verbais. A discussão se limitava à opinião contrária que cada um protegia firmemente. Pensar que meu marido fosse capaz de qualquer maldade, por um momento, foi até cômico, mas não consegui me acalmar inteiramente.

Sem ver outra saída, procurei o Julio pela casa, que neste momento estava sentado na varanda fumando um cigarro. Normalmente desistiria, pelo simples asco que tinha daquele cheiro, mas não hoje. Respirei fundo e com toda a calma que consegui encontrar falei:

“Qual é o seu problema!?!?”

“Oi…?”

“Você acha que eu nunca percebi que por trás dessa sua apatia você nutria pensamentos imundos? Que seu constante interesse por notícias de mortes, atentados e outros crimes era exagerado? Aquele excesso de filmes violentos…”

“Amor, não estou te entendendo…”

“Você sabe do que eu estou falando! Sua mãe me avisou que você era uma criança estranha, sem interesses, reclusa, mas eu não dei ouvidos. Onde eu estava com a cabeça!?”

“Hey… Eu era uma criança normal! Tímida, mas normal.”

“E sua aversão a cachorros, gatos e outros animais de estimação!?”

“Não é aversão… me incomoda a total dependência deles, como se fossem parasitas sociais… ou até o amor incondicional.”

“Talvez porque no fundo você sabe que não merece!”

“Amor, o que foi que eu fiz? Você sempre me achou normal, as vezes até demais.”

“Mas eu mudei de opinião!”

“Como assim?”

“Por que você sempre reduz a velocidade do carro próximo a acidentes, quase não disfarçando a excitação de ver alguém morto??”

“Não entendi!”

“Não se faça de desentendido. Então por que você fez questão de passar do lado do corpo daquele pobre menino na estrada, no final de semana que fomos para a praia?”

“Ah amor… você não entenderia, mas não é nada do que você está pensando!”

“Eu sabia!! Eu sabia que você era estranho!”

“Eu posso explicar… mas tem que prometer que vai me ouvir até o final. Ok?”

“Não prometo nada! Nem sei por quê ainda estou aqui. Deveria chamar a polícia…”

“Polícia!? Agora você me deixou confuso! Eu não fiz nada! Nunca!”

“Não fez nada mas sente vontade, tenho certeza!”

“Vontade do quê? Se tenho vontade de algo é de viver!”

“Ahn…?”

“É isso mesmo! Não gosto de ver pessoas mortas mais do que você ou qualquer outra pessoa normal. Pelo contrário! Morro de medo de esquiar, de andar de avião, de asa-delta, de mar aberto, de chuva forte, de baratas, de enchente, de carros, de assalto… No fundo sou um medroso, um pobre coitado que teme a própria sombra.”

“Agora sou eu quem estou confusa…”

“Eu não fico excitado frente a acidentes. Não gosto de ver corpos jogados ao lado da estrada, muito menos ensanguentados. Mas…”

“Mas o que?”

“Você não entenderia…”

“Julio, fale de uma vez!”

“Morro de medo de morrer! Morro de medo de essa vida acabar e não ter continuidade. Não me importo com céu, inferno ou mesmo com o juízo final, mas não suporto imaginar o vazio se nada existir. Um vazio amorfo, frio, infinito! A solidão eterna…”

“E o que isso tem a ver com tudo? O que tem a ver com o acidente?”

“Nessas horas sinto que adiei o fim um pouco mais. Sinto que a morte veio e levou outra pessoa, que está ocupada e deve demorar a voltar. Que ganhei mais alguns minutos, horas, dias, não sei. Apenas sei que não morri, que estou vivo.

Sinto que a vida é efêmera, porém valiosa. Que não posso viver com medo, ou simplesmente não viverei. Sei da contradição, mas não consigo evitar. Passo o dia assustado, sem saber se serei o próximo, mas ao ver que continuo aqui me sinto vivo. Mais vivo!”

“Acho que entendo perfeitamente a contradição.”

“Entende?”

“Claro! Uma pessoa tão racional, centrada, mas com tantos parafusos a menos. Sem dúvida uma contradição”

“Ah…”

“Deixa isso para lá e vamos dormir.”

Tênis Velho

Era um dia normal. Uma segunda-feira, ou quinta. Tinha trabalho, aos montes, e já estava atrasado. Mas havia algo de estranho nesse dia, algo que não encaixava. Não era a roupa, nem o café da manhã, sempre fraco. Não era também a ausência de companhia, que já não incomodava mais.

Se tudo estava normal, dentro da rotina, acho que eu não me pertencia mais.

Me despi imediatamente. Não foi fácil. Não sabia qual peça tirar primeiro. Demorei mais do que seria compreensível. Corri para o armário e procurei outras roupas, que pelo menos parecessem minhas. Encontrei uma calça jeans, uma camiseta, um tênis velho.

Já vestido descobri que sentia falta daquele tênis, como não sentia do almoço, do trabalho, da ex-namorada, ou mesmo da família. Senti uma vontade de correr, pular, chutar algo. Andar pareceu-me mais sensato naquele momento e saí de casa decidido, mas sem rumo.

Andei por horas, ou minutos, não soube diferenciar. Não sentia dor nos pés, ou nas pernas, mas os músculos diziam que já não havia volta. Em um momento de lucidez, sem saber para onde ir, ou mesmo onde estava, pedi um táxi. Claro erro, pois não soube responder ao taxista aonde ia. Ele, me pareceu, tomou de mim as rédeas e foi.

Chegamos ao aeroporto. Não entendi de início, mas de certa forma fez sentido. Para alguém sem rumo, que tal oferecer todos os rumos?

Logo na entrada meu olhar se fixou no painel de decolagens. Em outras vezes, a possibilidade de apontar para um destino e simplesmente ir me pareceria surreal, ficção, lenda. Dessa vez era minha única salvação. Fechei os olhos, estiquei o braço, movi a mão em círculos, parei e abri os olhos.

Las Vegas… Resolvi tentar novamente. Nenhuma jornada espiritual deve começar ou passar perto de Las Vegas. A segunda tentativa se mostrou frutífera. Buenos Aires.

Já conhecia, mas em passagem curta. Final de semana com uma companhia já há muito esquecida. Não se tratava, portanto, de um sinal. Talvez não fosse o destino final, mas apenas caminho. Não hesitei e fui ao balcão. Passagem, check in, voo no horário certo, algumas horas depois já não estava mais no Brasil.

Onde eu estava não parecia significar muito. Resolvi seguir viagem, novamente a pé. Caminhei por horas, já era noite quando percebi que estava perdido. O lugar eu conhecia, ruela com casas coloridas, música, bares, tango, mas não era meu destino.

O frio me despertou, mas não causou desconforto. Estava apenas de camiseta e a temperatura caía com certa rapidez. Procurei uma loja para comprar um casaco, mais pelos olhares estranhos do que por necessidade.

Os tênis retomaram seu rumo e segui na direção Sul. Creio que esta foi a direção que segui desde o apartamento, ainda no Brasil. Logo à frente um grupo de turistas, todos muito animados, se organizavam para entrar em um ônibus. No letreiro apenas Patagônia. Não lembro como, mas em pouco tempo embarquei e segui viagem.

A viagem, longa, se mostrou mais difícil do que imaginava. Me sentia pressionado, acuado pelos meus pensamentos. Não havia saudades, medo, remorso, apenas um desejo de seguir, mas algo parecia me dominar, controlar, talvez guiar. Essa noção me deixou ainda mais confuso.

Se não eu, quem teria o controle sobre minha vida? Não me refiro à religião, ainda que não pudesse evitar pensar em algo maior, algo com sentido, propósito claro. Lembrei de uma ilustração que vi um dia, onde uma cabeça cortada ao meio, dissecada, revelava um lagarto no lugar do cérebro.

Ri! A ideia de ser guiado por instinto não soava em nada com minha vida até aquele momento. Seria essa minha busca? O contato com a natureza, uma região inóspita, selvagem, seria uma necessidade há anos reprimida?

Horas e mais horas depois o ônibus parou. Havia um hotel onde o grupo se hospedaria e, aparentemente por pura sorte, havia um quarto disponível. Não saberia afirmar se realmente dormi ou se apenas aguardei o amanhecer com os olhos fechados. Sem dúvida não sonhei, ou não tinha qualquer lembrança do mesmo.

Ao sair sabia que só me restava seguir minha viagem. Segui em direção ao Sul, caminhei por horas antes de me convencer que precisava descansar. Foram necessários apenas alguns minutos sentado e sabia que não podia ficar, ou esperar mais.

Após mais algumas horas andando notei algo estranho. Me sentia mais leve, como se a caminhada estivesse cada vez mais fácil. Não poderia ter perdido peso em tão pouco espaço de tempo, mas mesmo que tivesse o cansaço seria suficiente para fazer sentir o peso da viagem. Entretanto, era nítida a diferença. Arriscaria dizer que andava a uma velocidade superior ao normal, a passos largos, firmes, decididos, ainda que mal tocasse o chão.

Não demorou a escurecer, mas não havia medo ou qualquer resistência dentro de mim. Sabia que precisava continuar, seguir meu destino, que agora sentia-o meu, seja por posse ou direito. A noite passou, seguida de inúmeros dias e noites. Perdi a conta.

A paisagem ficava cada vez mais monótona, branca, e os animais eram raros, em sua maioria aves. Por um tempo senti que estava sendo seguido, à distância, por uma tropa de cavalos selvagens, mas desistiram em algum momento. A constatação desse isolamento me despertou. Percebi que não comia há dias, ainda que parasse para beber água, mas não me sentia fraco, ou cansado.

Já anoitecia e a temperatura devia estar abaixo de zero. Ao ver o céu estrelado, pontilhado de luzes, estrelas, vivas ou mortas, me senti exposto, vulnerável, mas não havia medo. Senti a necessidade de me despir, retirar toda e qualquer referência de uma vida há muito esquecida. Por um segundo fiquei em dúvida quanto a retirar o tênis, mas não havia volta.

Lá estava eu, quem quer que fosse, nu e entregue. Me senti mais leve, como se levitasse, como se meus ossos estivessem repletos de ar e meu corpo ansiasse pelo voo. Apesar de duvidar de minha sanidade, me parecia loucura não tentar.

Ergui meus braços e tentei voar. Em pouco tempo já não sentia o chão nos meus pés e o vento me dava sustentação. Aumentei o ritmo e já não sabia se o barulho de penas era real ou imaginação. Sentia as lufadas de vento como estímulo para subir e seguir adiante. Mais uma vez não hesitei.

Eu voava. Não era humano mais, tinha uma percepção anatômica diferente. O mundo daquela altura era outro. Fechei os olhos e, quando os abri novamente, já não sabia o que era verdade ou se eram apenas devaneios sem sentido. Sentia fome, mas já avistava um roedor desatento. Um mergulho e já o tinha em minhas garras. Me deliciei e saciei a fome de semanas.