Mortal

Véspera de feriado, rodovia cheia, chuva, trânsito lento. Todos os veículos, inclusive o nosso, moviam-se vagarosamente, como se o prazer da viagem não estivesse no destino, mas no percurso.

A viagem já durava tempo suficiente para as músicas, brincadeiras e jogos terem se esgotado e todos estavam em silêncio. Olhei de relance para o banco traseiro e vi que nossa filha dormia, enquanto o bebê parecia encantado com as gotas de chuva na janela.

Chovia pouco neste momento, mas pela lentidão do trânsito alguém provavelmente se acidentara. Se não fosse essa a causa da lentidão, pior, era apenas o excesso de veículos. Ri pela maldade despercebida e acho que até corei.

Conforme o carro avançava, começamos a ver as luzes amarelas indicando o local do acidente. Notei que Julio, meu marido, ao invés de ir para as faixas do canto à direita, longe do acidente, parecia querer chegar mais e mais perto. Afastei esse pensamento apesar do desconforto.

Realmente a batida foi grande, mas eu só conseguia avistar um carro na grama entre as pistas. Automaticamente já procurava pelo outro carro envolvido, quando notei um corpo estendido, logo ao lado da estrada, apenas parcialmente coberto. Demorei mais do que gostaria para virar o rosto e fiquei com a imagem na cabeça por dias.

Nosso carro passou a poucos metros do corpo e Julio parecia encantado com a cena, olhos vidrados, aparentemente sem qualquer sinal de pena, ou mesmo repulsa. Cheguei a reclamar porque o bebê também olhava pela janela, ainda que fosse impossível ver algo, mas ele não parecia me ouvir.

Seguimos viagem como se nada tivesse ocorrido e chegamos à praia de madrugada. Todos estavam exaustos e fomos dormir. Ao deitar, perguntei ao Julio o que teria chamado a atenção dele, qual o motivo de tanta curiosidade, mas ouvi apenas um grunhido antes dele apagar as luzes.

O final de semana passou voando, como era normal em momentos felizes. Vez ou outra me pegava pensando no rapaz caído na estrada, no sangue, nas formas irreconhecíveis, mas me forçava a pensar em algo mais alegre. Demorou alguns dias, mas surtiu efeito.

Alguns meses depois, enquanto caminhava em direção ao escritório após o almoço, avistei um sebo e não resisti à tentação de entrar. O cheiro de poeira, abafado, era até atrativo, mas tive que me esforçar para percorrer o interior da loja sem tossir ou ter uma crise de espirro.

Andava por entre as estantes, com os braços esticados e as mãos alisando as diversas capas de livros, revistas e enciclopédias. Logo um volume chamou minha atenção. A capa não estava certa, tinha uma textura estranha, grosseira, era inteiramente preta e com título em vermelho sangue.

Não lembro o título, mas a história girava em torno de uma tragédia familiar, onde o epicentro era o filho mais velho, postumamente diagnosticado como psicopata. Comprei e comecei a ler imediatamente, num impulso injustificado. Continuei minha caminhada até o escritório com o livro nas mãos, lendo aos poucos enquanto desviava de outros pedestres.

No trabalho, cheguei ao absurdo de ir ao banheiro do escritório para continuar a ler a história, que ao mesmo tempo me prendia e enojava.

O garoto do livro era inteligente, introspectivo, recluso, mas nunca deu sinais de sua intenção ou de sua frieza. Alguns fatos isolados, como animais mortos encontrados em terrenos próximos à casa dos pais, poderiam ter levantado algum tipo de suspeita, mas ninguém fez essa conexão.

Acho que li o livro inteiro em dois ou três dias, mas só atentei à razão de minha curiosidade no final. Ao fechar o livro a imagem do rapaz morto na beira da estrada, naquele feriado prolongado, voltou lívida à mente, com mais detalhes do que lembrava.

Não entendia o porquê dessa conexão. Permaneci sentada no sofá da sala com o livro nas mãos por um tempo razoável, ponderando a história. Estava tão alheia ao mundo que não vi o Julio entrar em casa. Levei um susto!

Na hora em que o vi, o que apenas o subconsciente havia entendido, agora o consciente processava. Inúmeros pensamentos surgiram quase que simultaneamente… minha sogra comentando como o Julio era quieto quando criança, que passava os dias lendo, saía para expedições mas nunca dizia onde ou com quem estava.

Uma vez me confidenciou que, numa tentativa falha de conquistar a atenção do filho, comprou um cachorrinho, um vira-lata. O sorriso do filho desapareceu em poucos dias, sem qualquer razão aparente, e o cachorrinho passou a evitá-lo.

Não lembrava do desfecho da história ou do destino do animalzinho, mas senti um calafrio por todo o corpo. A completa proibição de termos cachorro ou qualquer outro animal de estimação em casa, apesar das inúmeras crises de nossa filha, passou a fazer menos sentido ainda.

Novamente o acidente me veio à mente e lembrei do interesse de Julio em olhar o corpo do pobre rapaz caído na estrada. Qual ser doentio ficaria feliz com a desgraça alheia?

Em meio às lembranças senti medo, pavor, um princípio de pânico. Por um segundo senti que minhas forças sumiram e acho que desmaiei. Ao acordar, Julio estava me abanando e jogando água no meu rosto. Só parou quando meu olhar fixo o deixou desconfortável.

Após me recuperar, tomei a decisão de enfrentá-lo. O desmaio interrompeu minha linha de raciocínio e deu mais clareza às ideias. Sabia que coincidências existiam e, apesar de alguns detalhes estranhos, eu poderia acabar com um relacionamento de anos sem motivo.

Mesmo em nossas piores brigas nunca trocamos agressões, físicas ou verbais. A discussão se limitava à opinião contrária que cada um protegia firmemente. Pensar que meu marido fosse capaz de qualquer maldade, por um momento, foi até cômico, mas não consegui me acalmar inteiramente.

Sem ver outra saída, procurei o Julio pela casa, que neste momento estava sentado na varanda fumando um cigarro. Normalmente desistiria, pelo simples asco que tinha daquele cheiro, mas não hoje. Respirei fundo e com toda a calma que consegui encontrar falei:

“Qual é o seu problema!?!?”

“Oi…?”

“Você acha que eu nunca percebi que por trás dessa sua apatia você nutria pensamentos imundos? Que seu constante interesse por notícias de mortes, atentados e outros crimes era exagerado? Aquele excesso de filmes violentos…”

“Amor, não estou te entendendo…”

“Você sabe do que eu estou falando! Sua mãe me avisou que você era uma criança estranha, sem interesses, reclusa, mas eu não dei ouvidos. Onde eu estava com a cabeça!?”

“Hey… Eu era uma criança normal! Tímida, mas normal.”

“E sua aversão a cachorros, gatos e outros animais de estimação!?”

“Não é aversão… me incomoda a total dependência deles, como se fossem parasitas sociais… ou até o amor incondicional.”

“Talvez porque no fundo você sabe que não merece!”

“Amor, o que foi que eu fiz? Você sempre me achou normal, as vezes até demais.”

“Mas eu mudei de opinião!”

“Como assim?”

“Por que você sempre reduz a velocidade do carro próximo a acidentes, quase não disfarçando a excitação de ver alguém morto??”

“Não entendi!”

“Não se faça de desentendido. Então por que você fez questão de passar do lado do corpo daquele pobre menino na estrada, no final de semana que fomos para a praia?”

“Ah amor… você não entenderia, mas não é nada do que você está pensando!”

“Eu sabia!! Eu sabia que você era estranho!”

“Eu posso explicar… mas tem que prometer que vai me ouvir até o final. Ok?”

“Não prometo nada! Nem sei por quê ainda estou aqui. Deveria chamar a polícia…”

“Polícia!? Agora você me deixou confuso! Eu não fiz nada! Nunca!”

“Não fez nada mas sente vontade, tenho certeza!”

“Vontade do quê? Se tenho vontade de algo é de viver!”

“Ahn…?”

“É isso mesmo! Não gosto de ver pessoas mortas mais do que você ou qualquer outra pessoa normal. Pelo contrário! Morro de medo de esquiar, de andar de avião, de asa-delta, de mar aberto, de chuva forte, de baratas, de enchente, de carros, de assalto… No fundo sou um medroso, um pobre coitado que teme a própria sombra.”

“Agora sou eu quem estou confusa…”

“Eu não fico excitado frente a acidentes. Não gosto de ver corpos jogados ao lado da estrada, muito menos ensanguentados. Mas…”

“Mas o que?”

“Você não entenderia…”

“Julio, fale de uma vez!”

“Morro de medo de morrer! Morro de medo de essa vida acabar e não ter continuidade. Não me importo com céu, inferno ou mesmo com o juízo final, mas não suporto imaginar o vazio se nada existir. Um vazio amorfo, frio, infinito! A solidão eterna…”

“E o que isso tem a ver com tudo? O que tem a ver com o acidente?”

“Nessas horas sinto que adiei o fim um pouco mais. Sinto que a morte veio e levou outra pessoa, que está ocupada e deve demorar a voltar. Que ganhei mais alguns minutos, horas, dias, não sei. Apenas sei que não morri, que estou vivo.

Sinto que a vida é efêmera, porém valiosa. Que não posso viver com medo, ou simplesmente não viverei. Sei da contradição, mas não consigo evitar. Passo o dia assustado, sem saber se serei o próximo, mas ao ver que continuo aqui me sinto vivo. Mais vivo!”

“Acho que entendo perfeitamente a contradição.”

“Entende?”

“Claro! Uma pessoa tão racional, centrada, mas com tantos parafusos a menos. Sem dúvida uma contradição”

“Ah…”

“Deixa isso para lá e vamos dormir.”

3 respostas para “Mortal”

  1. O provérbio chinês diz que: “todo caminho, por mais longo que seja, começa sempre pelo primeiro passo”. Este já é seu segundo passo. Continue assim e você fará uma longa e bela jornada. Rodolfo

  2. Gostei Léo, misturou um pouco de suspense, humor nas loucuras do pensamento feminino e questões existenciais, quase um Woody Allen, rs. Abs.

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