Tênis Velho

Era um dia normal. Uma segunda-feira, ou quinta. Tinha trabalho, aos montes, e já estava atrasado. Mas havia algo de estranho nesse dia, algo que não encaixava. Não era a roupa, nem o café da manhã, sempre fraco. Não era também a ausência de companhia, que já não incomodava mais.

Se tudo estava normal, dentro da rotina, acho que eu não me pertencia mais.

Me despi imediatamente. Não foi fácil. Não sabia qual peça tirar primeiro. Demorei mais do que seria compreensível. Corri para o armário e procurei outras roupas, que pelo menos parecessem minhas. Encontrei uma calça jeans, uma camiseta, um tênis velho.

Já vestido descobri que sentia falta daquele tênis, como não sentia do almoço, do trabalho, da ex-namorada, ou mesmo da família. Senti uma vontade de correr, pular, chutar algo. Andar pareceu-me mais sensato naquele momento e saí de casa decidido, mas sem rumo.

Andei por horas, ou minutos, não soube diferenciar. Não sentia dor nos pés, ou nas pernas, mas os músculos diziam que já não havia volta. Em um momento de lucidez, sem saber para onde ir, ou mesmo onde estava, pedi um táxi. Claro erro, pois não soube responder ao taxista aonde ia. Ele, me pareceu, tomou de mim as rédeas e foi.

Chegamos ao aeroporto. Não entendi de início, mas de certa forma fez sentido. Para alguém sem rumo, que tal oferecer todos os rumos?

Logo na entrada meu olhar se fixou no painel de decolagens. Em outras vezes, a possibilidade de apontar para um destino e simplesmente ir me pareceria surreal, ficção, lenda. Dessa vez era minha única salvação. Fechei os olhos, estiquei o braço, movi a mão em círculos, parei e abri os olhos.

Las Vegas… Resolvi tentar novamente. Nenhuma jornada espiritual deve começar ou passar perto de Las Vegas. A segunda tentativa se mostrou frutífera. Buenos Aires.

Já conhecia, mas em passagem curta. Final de semana com uma companhia já há muito esquecida. Não se tratava, portanto, de um sinal. Talvez não fosse o destino final, mas apenas caminho. Não hesitei e fui ao balcão. Passagem, check in, voo no horário certo, algumas horas depois já não estava mais no Brasil.

Onde eu estava não parecia significar muito. Resolvi seguir viagem, novamente a pé. Caminhei por horas, já era noite quando percebi que estava perdido. O lugar eu conhecia, ruela com casas coloridas, música, bares, tango, mas não era meu destino.

O frio me despertou, mas não causou desconforto. Estava apenas de camiseta e a temperatura caía com certa rapidez. Procurei uma loja para comprar um casaco, mais pelos olhares estranhos do que por necessidade.

Os tênis retomaram seu rumo e segui na direção Sul. Creio que esta foi a direção que segui desde o apartamento, ainda no Brasil. Logo à frente um grupo de turistas, todos muito animados, se organizavam para entrar em um ônibus. No letreiro apenas Patagônia. Não lembro como, mas em pouco tempo embarquei e segui viagem.

A viagem, longa, se mostrou mais difícil do que imaginava. Me sentia pressionado, acuado pelos meus pensamentos. Não havia saudades, medo, remorso, apenas um desejo de seguir, mas algo parecia me dominar, controlar, talvez guiar. Essa noção me deixou ainda mais confuso.

Se não eu, quem teria o controle sobre minha vida? Não me refiro à religião, ainda que não pudesse evitar pensar em algo maior, algo com sentido, propósito claro. Lembrei de uma ilustração que vi um dia, onde uma cabeça cortada ao meio, dissecada, revelava um lagarto no lugar do cérebro.

Ri! A ideia de ser guiado por instinto não soava em nada com minha vida até aquele momento. Seria essa minha busca? O contato com a natureza, uma região inóspita, selvagem, seria uma necessidade há anos reprimida?

Horas e mais horas depois o ônibus parou. Havia um hotel onde o grupo se hospedaria e, aparentemente por pura sorte, havia um quarto disponível. Não saberia afirmar se realmente dormi ou se apenas aguardei o amanhecer com os olhos fechados. Sem dúvida não sonhei, ou não tinha qualquer lembrança do mesmo.

Ao sair sabia que só me restava seguir minha viagem. Segui em direção ao Sul, caminhei por horas antes de me convencer que precisava descansar. Foram necessários apenas alguns minutos sentado e sabia que não podia ficar, ou esperar mais.

Após mais algumas horas andando notei algo estranho. Me sentia mais leve, como se a caminhada estivesse cada vez mais fácil. Não poderia ter perdido peso em tão pouco espaço de tempo, mas mesmo que tivesse o cansaço seria suficiente para fazer sentir o peso da viagem. Entretanto, era nítida a diferença. Arriscaria dizer que andava a uma velocidade superior ao normal, a passos largos, firmes, decididos, ainda que mal tocasse o chão.

Não demorou a escurecer, mas não havia medo ou qualquer resistência dentro de mim. Sabia que precisava continuar, seguir meu destino, que agora sentia-o meu, seja por posse ou direito. A noite passou, seguida de inúmeros dias e noites. Perdi a conta.

A paisagem ficava cada vez mais monótona, branca, e os animais eram raros, em sua maioria aves. Por um tempo senti que estava sendo seguido, à distância, por uma tropa de cavalos selvagens, mas desistiram em algum momento. A constatação desse isolamento me despertou. Percebi que não comia há dias, ainda que parasse para beber água, mas não me sentia fraco, ou cansado.

Já anoitecia e a temperatura devia estar abaixo de zero. Ao ver o céu estrelado, pontilhado de luzes, estrelas, vivas ou mortas, me senti exposto, vulnerável, mas não havia medo. Senti a necessidade de me despir, retirar toda e qualquer referência de uma vida há muito esquecida. Por um segundo fiquei em dúvida quanto a retirar o tênis, mas não havia volta.

Lá estava eu, quem quer que fosse, nu e entregue. Me senti mais leve, como se levitasse, como se meus ossos estivessem repletos de ar e meu corpo ansiasse pelo voo. Apesar de duvidar de minha sanidade, me parecia loucura não tentar.

Ergui meus braços e tentei voar. Em pouco tempo já não sentia o chão nos meus pés e o vento me dava sustentação. Aumentei o ritmo e já não sabia se o barulho de penas era real ou imaginação. Sentia as lufadas de vento como estímulo para subir e seguir adiante. Mais uma vez não hesitei.

Eu voava. Não era humano mais, tinha uma percepção anatômica diferente. O mundo daquela altura era outro. Fechei os olhos e, quando os abri novamente, já não sabia o que era verdade ou se eram apenas devaneios sem sentido. Sentia fome, mas já avistava um roedor desatento. Um mergulho e já o tinha em minhas garras. Me deliciei e saciei a fome de semanas.

7 respostas para “Tênis Velho”

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