Alta do Dólar favorece o Brasil

O mercado segue nervoso em meio à especulação sobre a crise na zona do Euro e revisões pessimistas do crescimento mundial. Com isso os mercados de moeda (FX) registraram forte aumento na volatilidade e o Real tem recebido destaque em todas as mídias, tanto nacional quanto internacional, pela forte desvalorização frente ao Dólar.

Entretanto, este movimento está ocorrendo em inúmeros países e o Dólar está valorizando frente ao Euro, Rublo (Rússia), Dólar Australiano, entre outras, conforme pode ser visto no gráfico abaixo elaborado pela CME (Chicago Mercantile Exchange). A mudança na taxa de câmbio tem forte impacto no mercado de commodities, sobretudo para países exportadores como os Estados Unidos.

Diante da recente valorização do Dólar, a carne bovina norte-americana tem ficado mais cara e, em contrapartida, a carne importada fica mais atrativa aos compradores. O movimento foi muito expressivo, sobretudo frente ao Dólar Australiano e Neozelandês, e favorece a importação de carne bovina desses países.

A única moeda que não apresentou desvalorização frente ao Dólar foi o Yen (Japão), entretanto o Yen apresentou forte valorização frente ao Dólar Australiano, o que pode favorecer uma mudança da origem da carne importada pelos japoneses.

Esse fato é positivo ao Brasil por alguns motivos. A desvalorização do Real aumenta a competitividade da carne bovina no mercado internacional e, caso a Austrália aumente os embarques de carne para os EUA e Japão, outros mercados ficarão disponíveis à carne brasileira.

Apenas a sombra do macro ainda paira sobre o cenário econômico de curto prazo.

 

Escalas de abate

Boi gordo: historicamente, as escalas de abate aumentam em setembro e voltam a cair em outubro, entretanto, o movimento observado nos últimos dias foi mais forte do que o esperado. Com base nos dados do Cepea, que considera a escala com dias corridos (inclui final de semana), a situação melhorou para todos os estados em setembro, ainda que no Norte a melhora tenha sido leve.

Dashboard – Carnes

Frango: a retração nos alojamentos resultou em forte alta para o frango vivo em agosto (+17,7% MoM), com repasse parcial ao longo da cadeia. A única queda foi registrada no preço médio da exportação.

Suíno: diante de custos altos e preços baixos para a venda do suíno, produtores anteciparam as vendas do cevado e abateram animais com <100kg. O efeito foi verificado em julho, mas não houve sustentação dos preços em agosto para o suíno granja (-5,5% MoM), enquanto a carne no atacado ficou estável e subiu no varejo. Na exportação o resultado foi estável.

Boi gordo: altas registradas em todos os elos em agosto (boi gordo +1,8% MoM), mas com destaque para o maior preço obtido na exportação, recorde histórico tanto em dólares quanto em reais.

Boi versus Frango

Atualmente a carne mais consumida no Brasil e no mundo é a de frango, mas até alguns anos atrás a carne suína era a mais consumida mundialmente e a preferência nacional era a carne bovina.

Consumo de carnes (kg/hab/ano)

Com um ciclo de produção ao redor de 3 meses, a avicultura tem maior maleabilidade para se ajustar às condições de oferta e demanda. Além disso, com a aceleração econômica de países emergentes e o conseqüente efeito no consumo de proteínas de origem animal, a carne de frango ganhou espaço sobre as carnes bovina e suína.

O crescimento médio no consumo entre 1961 e 2007 foi de 3,2% para a carne de frango, enquanto a carne suína teve 1,3% de crescimento e a carne bovina ficou praticamente estável (0,2%).

Essa mudança no padrão de consumo deve-se a inúmeros fatores, entre eles a imagem de que a carne branca é mais saudável e os diferentes hábitos culturais, mas o principal fator é o preço mais baixo.

Preço da carne bovina e de frango – US$/t

No mercado internacional, a diferença entre o preço da carne bovina e de frango era de 169% na década de 80 e chegou a estreitar até 50% a partir de 2000, entretanto, diante do ciclo mais longo da produção de carne bovina e do crescimento mais lento da produção nos últimos anos, essa diferença voltou a aumentar e no período entre janeiro de 2010 e julho de 2011 voltou para 91%.

Não há dúvida de que a carne de frango permanecerá no 1º lugar no ranking, porém discute-se a possibilidade de a carne bovina perder espaço na mesa e virar produto de luxo. Entretanto, tanto a carne de frango quanto a bovina são commodities e, portanto, seguem ciclos de alta e baixa nos preços, reflexo do ajuste entre oferta e demanda, e esta distância deve voltar a encurtar nos próximos anos.

Cenário de longo prazo para carnes

O índice de preços de alimentos do IMF (International Monetary Fund) ultrapassou o pico registrado em 2008, mas já mostra desaceleração desde abril deste ano. Entretanto, os preços seguem com alta expressiva na variação anual (jul/10 x jul/11) liderado por soja e milho. O único grupo que registrou queda foi o frango.

Evolução dos alimentos, carnes (bovina, suína e de frango) e grãos (milho, soja e trigo) – US$/t

Vale destacar que em um horizonte mais longo o preço dos alimentos apenas começou o movimento de alta e permanece bem abaixo do registrado até a década de 80. Além disso, a demanda por carnes, laticínios, frutas, vegetais, etc., é mais elástica do que para grãos, o que é positivo para a demanda de países emergentes.

Preço real dos alimentos

De acordo com a FAO (Órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) o cenário permanece positivo e as carnes devem liderar a demanda nas próximas décadas, seguido de lácteos, cereais e outros.

Demanda mundial de alimentos (1961=100)

Dashboard – Carnes

Após alguns meses fora do ar, volto a atualizar o blog com informações do mercado de commodities agrícolas.

O mês de julho foi marcado pela virada no mercado das três principais proteínas de origem animal: boi, frango e suíno. Veja abaixo um resumo de cada setor e um dashboard (painel) consolidando os mercados para todos os elos, com destaque (azul) para 2011.

Suíno – Após meses com margens apertadas, ou até negativas por conta dos custos de produção em alta, os suinocultores foram surpreendidos com a notícia do embargo russo ao MT, PR e RS, que impactou diretamente as exportações do setor. Com isso o produtor foi forçado a ajustar sua produção reduzindo o peso de abate dos animais, o que resultou em queda na oferta no mercado ao longo do mês. Essa alta na granja já impactou os preços da carne no atacado, mas ainda não teve efeito no varejo ou nos preços da carne exportada.

Frango – O mesmo cenário, ainda que em menor intensidade, pode ser dito para o frango. Apesar dos números mais recentes de produção apontarem novos recordes é possível observar a desaceleração do setor e a queda na demanda por insumos confirma isso. A avicultura também enfrenta dificuldades pela alta quase contínua dos custos de produção.

Boi – Das três proteínas o boi gordo apresenta cenário mais ajustado de oferta, com preços acima do observado no ano passado em todos os elos da cadeia. No último mês os preços voltaram a reagir com a queda na oferta de gado e dificuldade das indústrias em preencherem as escalas de abate, exceto àquelas que possuem confinamento próprio ou gado a termo. A demanda também voltou a aquecer e a carne já subiu no atacado e sinaliza alta no varejo.



De olho no mercado de commodities

O mundo das commodities – agrícolas, minerais ou energéticas – está em foco nos últimos anos. Em parte pela alta expressiva nos preços antes da crise econômica mundial de 2008, e pela queda consequente para algumas, mas também pela importância diante do crescimento de economias emergentes.

O Brasil, pela abundância de terras, clima favorável, disponibilidade de água e outros recursos naturais, sempre foi referência em produção de matéria-prima e o título de “celeiro mundial” tem fundamentos, sobretudo recentemente, através da adoção de tecnologia, desenvolvimento de novas sementes, melhoramento genético e profissionalização do campo.

Com isso, inúmeros setores do agronegócio assumiram posição de destaque mundial. O Brasil é o maior produtor de café, laranja e cana de açúcar; segundo maior em soja e carne bovina; terceiro em produção de milho e carne de frango e quarto em carne suína. Outros segmentos, como a bovinocultura leiteira, também se destacam, conforme chegamos perto do limite do consumo interno.

Entretanto, muito ainda precisa ser feito para que esse crescimento seja sustentável. A alta carga tributária, custo provocado pela burocracia, falta de infra-estrutura, dependência do modal rodoviário, questões sanitárias ainda pendentes e a crescente preocupação com o meio ambiente merecem grande destaque.

O objetivo deste blog é acrescentar uma visão crítica ao setor, com maior foco nas commodities agrícolas, e aumentar a disponibilidade de informação a um mercado ainda carente de transparência.

Espero a colaboração de todos os interessados.

Leonardo Alencar